Tributo a Homero Silva, pioneiro da televisão brasileira

Crônica de Francisco Souto Neto para o Jornal Centro Cívico

Para publicação em Março de 2015

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Tributo a Homero Silva, pioneiro da televisão brasileira

Francisco Souto Neto

Homero Domingues da Silva nasceu em São Paulo a 30 de janeiro de 1918. Ele e seu irmão Gilberto entraram para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, classificados respectivamente em primeiro e segundo lugares. Enquanto Gilberto seguiu a carreira jurídica, Homero fez um concurso para locutor na Rádio Tupi de São Paulo, e logo foi considerado como a mais bela voz dentre todos os locutores da capital. Em poucos anos ele chegou a diretor da emissora. Em 1938 criou o programa infantil “Clube do Papai Noel”, que teve representações de Porto Alegre a Fortaleza. Homero esteve várias vezes em Curitiba, que tinha na antiga Rádio Guairacá uma versão local do seu programa: o Clube Mirim M-5, apresentado por Aluísio Finzetto. Em São Paulo, Homero Silva foi o padrinho artístico de inúmeras celebridades, dentre as quais Hebe Camargo, Wilma Bentivegna, Vida Alves, Wanderley Cardoso e um número imenso de outros que se tornaram muito importantes. Em Porto Alegre, o Clube do Papai Noel (lá denominado Clube do Guri) descobriu a cantora Elis Regina. Já famoso radialista, ele fez cinema, tendo atuado em alguns filmes, como “Quase no céu” em 1949.

A primeira emissora de televisão em nosso país, a TV Tupi, foi inaugurada em 1950. Como somente poucas dezenas de pessoas tinham televisores em casa, o dono da emissora, Assis Chateaubriand, importou duzentos aparelhos que distribuiu em praças e locais públicos, para que milhares de paulistanos pudessem saber o que era a televisão. Chateaubriand convidou Homero Silva para apresentar o primeiro programa que foi ao ar no dia 18 de setembro de 1950. Exatamente às 17 horas apareceu na tela o rosto de Homero que, com sua voz bela e poderosa, convidou Lolita Rodrigues a cantar o “Hino da TV”. Depois disso, Homero apresentou o primeiro programa, batizado de “TV na Taba”, e chamou Mazzaroppi, que representou um número cômico, depois Lima Duarte, que atuou como ator num monólogo, em seguida pediu a Ivon Cury para ir ao palco cantar… e assim começou a história da televisão no Brasil.

Nos anos que se seguiram, Homero Silva criou importantes programas, como o “Clube dos Artistas” (que apresentou por cerca de 10 anos e depois passou a ser comandado por Airton e Lolita Rodrigues) projetando um número incalculável de grandes profissionais que se imortalizaram em todos os campos da arte e cultura, principalmente na música e nos vários aspectos da dramaturgia.

Na década de 50 Homero Silva casou-se em segundas núpcias com Mariinha de Salles Souto, irmã de meu pai, com quem teve uma filha, a minha prima Silvana, hoje médica. Ele conquistou mais de uma dúzia de troféus Roquette Pinto como “o melhor apresentador da televisão do Brasil”. Foi o principal locutor da TV Tupi de São Paulo durante muitos anos.

Quando garoto, eu tinha fascínio por esse meu tio, porque ele vivia no que era, para mim, o mundo mágico da televisão. Certa vez, visionário, disse-me ele: “Um dia, num futuro distante, todas as pessoas poderão ter emissoras de televisão em suas próprias casas”. Naquele tempo a televisão ainda não existia no Paraná, e essas palavras do meu tio criaram em mim fantasias sobre o futuro do mundo. Como Homero Silva faleceu em 1981, não viveu para conhecer os prodígios da internet que de fato agora nos permitem que tenhamos os nossos próprios “canais de televisão caseiros” através do YouTube e outros.

Homero interessou-se também pela política, foi o mais votado vereador da capital de São Paulo por duas vezes seguidas, e depois foi eleito deputado estadual, também por dois mandatos consecutivos. Quando candidatou-se a prefeito de São Paulo, perdeu para Lino de Matos por apenas 50 votos, o que suscitou polêmicas, mas Homero, sério e honesto, não levou a questão adiante. Depois foi presidente da Fundação Padre Anchieta, diretor da Rádio Cultura, presidiu a TELESP por quatro anos, e desde o final dos anos 80 foi professor de Direito Constitucional nas Faculdades FMU e de Bragança Paulista.

Homero Silva… um visionário, um gentleman requintado que se inclinava em cerimonioso beija-mão até mesmo às próprias cunhadas, alguém formidável e de grande cultura, um político ético, o pioneiro da televisão no Brasil e, acima de tudo, meu tio inesquecível.

(Francisco Souto Neto – Fevereiro de 2015)

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Fotos de HOMERO SILVA entre 1948 e 1955:

FOTO 1:

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Homero Silva (Homero Domingues da Silva) foi o primeiro rosto a aparecer num vídeo de televisão no Brasil e na América do Sul no dia 18 de setembro de 1950, quando inaugurou a TV Tupi de São Paulo, a convite de Assis Chateaubriand.

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FOTO 2:

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Homero Silva, após apresentar-se no vídeo da primeira transmissão da televisão brasileira, chamou Assis Chateaubriand, dono da emissora, para proferir o seu discurso.

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FOTO 3:

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Nesta foto da inauguração da TV Tupi, além de Homero Silva e Assis Chateaubriand aparece também Lolita Rodrigues.

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RARÍSSIMO FILME DE 24 SEGUNDOS:

Curtíssimo filme mudo da inauguração da TV Tupi de São Paulo em 1950, de apenas 24 segundos, com ênfase na cena de Homero Silva ao lado de Assis Chateabriand, durante o discurso deste último:

https://www.youtube.com/watch?v=XPHYCE8mVpg

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FOTO 4:

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Este é um fotograma do filme cinematográfico feito na inauguração da TV Tupi, com Assis Chateaubriand discursando ao lado de Homero Silva.

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FOTO 5:

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No segundo programa “TV na Taba”, Homero Silva recebe os cantores Ivon Curi e Hebe Camargo (anos depois Hebe Camargo passou a ser loura e uma das mais importantes apresentadoras da televisão brasileira).

FOTO 6:

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Aqui, e adiante, fotos tiradas nos meses seguintes com Homero Silva comandando seus programas ou fazendo entrevistas.

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FOTO 7:

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Assim eram os televisores no ano de 1950.

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FOTO 8:

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Homero Silva ouvindo a menina Sônia Maria Dorce.

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FOTO 9:

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Homero Silva com a menina Sônia Maria Dorce entre os palhaços Fuzarca e Torresmo.

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FOTO 10:

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Homero Silva entre as crianças no seu programa Clube do Papai Noel.

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FOTO 10-A:

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Crianças no Clube do Papai Noel.

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FOTO 11:

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Homero Silva realizando entrevistas na TV Tupi.

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FOTO 12:

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Homero Silva, em seu programa, entrevistando personalidades de Ourinhos. Foto de Francisco de Almeida Lopes.

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FOTO 13:

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Fotograma do filme “Quase no céu”, de 1949, onde Homero Silva atua como noivo de Vida Alves. A direção foi de Oduvaldo Viana. No elenco, além dos mencionados Homero Silva e Vida Alves, atuaram: Dionízio de Azevedo, Hebe Camargo, Lia de Aguiar, Paulo de Alencar, Lima Duarte, Lolita Rodrigues, Carmen Silva, Oduvaldo Viana Filho, Maria Vidal e outros artistas.

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FOTO 14:

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No livro “O Espetáculo da cultura paulista”, de David José Lessa Mattos, encontra-se o cartaz do filme “Quase no céu”. Esse cartaz foi publicado em maio de 1949 no Diário da Noite e Diário de São Paulo (arquivo Lia de Aguiar).

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FOTO 15:

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No livro “O Espetáculo da cultura paulista”, de David José Lessa Mattos, página 66, encontra-se esta foto de Vida Alves, Dionísio de Azevedo (ao centro) e Homero Silva, num intervalo das filmagens de “Quase no céu” (foto originalmente publicada na revista O Cruzeiro de 9.10.1948):

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FOTO 16:

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Este é o Troféu Roquette Pinto, idealizado por Blota Júnior, que era entregue aos melhores do rádio e da televisão.

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FOTO 17:

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Foto de Homero Silva quando deputado pela UDN, aos 37 anos, em discurso proferido na 139ª Sessão Ordinária da Assembleia Legislativa da capital de São Paulo, em 14.10.1955:

“…ocorreu há poucos dias, em São Paulo, um fato auspicioso que merece registro e o espontâneo aplauso dos representantes do povo: é que no Instituto ‘Adolfo Lutz’, por um biologista paulista [Roberto de Almeida Moura, médico do Laboratório de Vírus Neurotrópicos], foi isolado o vírus da poliomielite.

Não faz muito, esse trabalho, essa importantíssima descoberta se verificou nos Estados Unidos e o acontecimento teve, no mundo inteiro, a maior repercussão.

O que ocorreu em São Paulo, dadas as peculiaridades da incidência da paralisia infantil nos diversos países, é de uma grande importância, porque significa uma ampliação da vacina Salk nos nossos meios.

Foi, aliás, o esclarecimento que me proporcionou, há poucos instantes, o meu nobre amigo e colega Hilário Torloni, que é também ilustre médico. Cabe-nos, portanto, Srs.deputados, assinalando o fato, consignar os nossos aplausos, aplausos que devem ser não apenas um estímulo, mas um agradecimento do povo de São Paulo aos virologistas do Instituto ‘Adolfo Lutz’, na expectativa de que o prosseguimento  desses  estudos determine  a fabricação  muito  em  breve  da  vacina  entre  nós, sendo a debelação completa da incidência desse terrível mal”.

FOTO 18:

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O casal Mariinha de Salles Souto e Silva e Homero Silva.

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Visita de Francisco Souto Neto aos seus tios HOMERO SILVA e MARIINHA DE SALLES SOUTO E SILVA em agosto 1966, na Av. Angélica, São Paulo, em companhia da mãe Edith Barbosa Souto, da avó Nina de Barros Souto e das tias Jurema de Barros Souto e Cecy de Barros Souto.

FOTO 19:

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O casal Mariinha de Salles Souto e Silva e Homero Silva em casa.

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FOTO 20:

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Mariinha de Salles Souto e Silva.

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FOTO 21:

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As cunhadas Mariinha e Edith Barbosa Souto.

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FOTO 22:

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Nina de Barros Souto e Francisco Souto Neto (avó e neto).

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FOTO 23:

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Homero Silva e Mariinha de Salles Souto e Silva (com as irmãs Jurema de Barros Souto e Cecy de Barros Souto).

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FOTO 24:

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Francisco Souto Neto com os tios Homero Silva e Mariinha.

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Em abril de 1974, Francisco Souto Neto, o irmão Olímpio Souto e a mãe de ambos, Edith Barbosa Souto (com seu chihuahua Quincas Little Poncho) visitam HOMERO SILVA e MARIINHA DE SALLES SOUTO E SILVA em sua casa de campo de Atibaia, onde estão vários parentes a passeio.

FOTO 25:

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Edith Barbosa Souto nos jardins da casa de campo, com o seu chihuahua Quincas Little Poncho.

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FOTO 25-a:

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Familiares reunidos na casa de campo. Em pé: Edith Barbosa Souto, Jacyra Souto Martini, Nina de Barros Souto, Jurema de Barros Souto, Cecy de Barros Souto (segurando o bebê de Maria Cecília), Hélio Martini, Olímpio Souto, Mariinha de Salles Souto e Silva, Silvana de Salles Silva e Homero Silva. Sentados: Aristides Medeiros, Maria Cecília Medeiros e criança de ambos.

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FOTO 26:

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Homero Silva e Francisco Souto Neto segurando dois dos muitos troféus Roquette Pinto conquistados por Homero como “o melhor apresentador da televisão no Brasil”.

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FOTO 27:

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Homero Silva, Aristides Medeiros e Olímpio Souto dirigindo-se aos fundos da chácara.

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FOTO 28:

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Francisco Souto Neto e Homero Silva na linda capela que Homero e Mariinha mandaram construir na sua chácara.

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FOTO 29:

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Mariinha de Salles Souto e Silva colhendo uma romã no pomar da sua chácara.

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Em setembro de 1980 Francisco Souto Neto visita seus tios HOMERO SILVA e MARIINHA DE SALLES SOUTO E SILVA, e prima SILVANA SALLES SILVA, em seu esplêndido apartamento no Edifício Bretagne, na Av. Higienópolis, São Paulo.

Foto 30:

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Visita de Francisco Souto Neto aos tios Homero e Mariinha.

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FOTO 31:

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Mariinha e Homero Silva.

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FOTO 32:

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Silvana de Salles Silva.

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Francisco Souto Neto e Homero Silva.

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FOTO 34:

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O casal Homero Silva e Mariinha.

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FOTO 35:

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Sentam-se num mesmo sofá: Francisco Souto Neto, Silvana, Homero Silva e Mariinha.

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FOTO 36:

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Mariinha, Homero Silva e Silvana.

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FOTO 37:

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Mariinha de Salles Souto e Silva na sala de jantar. À esquerda, Silvana refletida no espelho.

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Mariinha, Souto Neto e Silvana.

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FOTO 39:

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Mariinha de Salles Souto e Silva.

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FOTO 40:

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Mariinha e seu sobrinho Francisco Souto Neto.

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1981

FOTO 41:

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Um ano após as fotos acima falece Homero Silva em 19 de setembro de 1981, o que foi noticiado nas revistas Veja e Visão, e nos principais jornais do país. Acima, na Folha de São Paulo.

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No endereço abaixo, de um blog que abrange os anos de 1980, 1981 e 1982, as notícias sobre o falecimento de Homero Silva poderão ser encontrados no espaço reservado ao ano de 1981:

https://franciscosoutoneto.wordpress.com/2012/01/20/1102/

FIM

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Sobre franciscosoutoneto

O comendador Francisco Souto Neto trabalhou no extinto Banco do Estado do Paraná S.A. até aposentar-se, onde exerceu as funções de inspetor, assessor da diretoria, da presidência e para assuntos de cultura. Filho do jornalista e radialista Arary Souto (1908-1963) e Edith Barbosa Souto (1911-1997), é advogado, jornalista e crítico de arte, com colunas em jornais e revistas desde os anos 70. Tem integrado diretorias e conselhos consultivos e administrativos de diversas entidades, sobretudo de órgãos oficiais ligados à cultura paranaense. Foi-lhe outorgado o título de Comendador pela Associação Brasileira de Liderança (São Paulo). Recebeu o "Troféu Imprensa do Brasil 2014" e também o "Prêmio Excelência e Qualidade Brasil 2015" na área da Cultura, como “Destaque entre os melhores do Brasil”. Em novembro de 2016 recebeu mais uma vez o Troféu Imprensa Brasil, seguido do Prêmio Cidade de Curitiba, e ainda do Top of Mind Quality Gold. É membro da Academia de Letras José de Alencar, em Curitiba, onde ocupa a Cadeira Patronímica nº 26.
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7 respostas para Tributo a Homero Silva, pioneiro da televisão brasileira

  1. Pingback: Dos Leitores: Homero Silva | Aroldo Murá

  2. tania maria schaykoski disse:

    Obrigada pelo deleite, adorei a história, uma família bela. Obrigada mesmo sr imortal.

  3. Pingback: EXPRESSÃO & ARTE por Francisco Souto Neto. | fsoutoneto – EXPRESSÃO & ARTE

  4. Pingback: Francisco Souto Neto – VELHOS JORNAIS, ANTIGOS RECORTES (Décadas de 40 a 90 do Século XX) | VELHOS JORNAIS, ANTIGOS RECORTES por Francisco Souto Neto

  5. José Bortolo Breda disse:

    Souto:
    Gostei do que li. Afinal, a televisão transformou o mundo e a internet veio complementar o avanço. O pioneirismo da televisão, no Brasil, está registrado e você participou da história. Parabéns.

    • Caríssimo amigo Breda!
      Fico contente por você ter gostado da crônica. Como meu tio faleceu no começo da década de 80, portanto antes desse prodígio que é a internet, restaram pouquíssimos registros de sua brilhantíssima trajetória de vida, tanto sob o aspecto de comunicador, quanto do político correto que ele foi. Minha crônica é uma forma de passar algumas informações a possíveis pesquisadores.
      Muito obrigado por suas palavras de estímulo.
      Um abraço.

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