Professoras da minha infância: os inocentes e as bruxas

Crônica de Francisco Souto Neto para o Jornal Centro Cívico

Para publicação em Novembro de 2014

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Francisco Souto Neto

Professoras da minha infância: os inocentes e as bruxas

Na minha meninice, ia-se para o jardim-da-infância aos seis anos. O meu foi em 1950 no Colégio Sant’Ana, Ponta Grossa, na esquina da Av. Bonifácio Vilela com a Rua do Rosário. No primeiro dia eu e meu vizinho da mesma idade, Carlos Roberto Emílio, fomos levados pela minha irmã Ivone, de onze anos, que estudava na mesma escola. Tratava-se de um colégio feminino, de freiras, todavia o jardim-da-infância era misto e funcionava ao fundo do pátio do recreio, num pavilhão alcançado por escadaria externa. Minhas recordações são vagas, porém lembro-me de janelinhas ao lado dessa escadaria, que eram os respiros do porão, mas que os colegas chamavam de “o quarto escuro”, para onde as “irmãs” – as freiras – mandariam as crianças desobedientes. Entretanto as religiosas eram bondosas. Elas às vezes passavam entre as carteiras carregando imensos painéis com cenas bíblicas, enquanto contavam histórias. Eu usava chuca-chuca e cabelos meio compridos que, contudo, não ultrapassavam o limite da nuca. Além do amigo Carlinhos, lembro-me apenas de mais um colega do jardim-da-infância: Álvaro Correia de Sá Filho. Que teria sido feito dele e de todos os demais, meninos e meninas?

Em 1951, cabelo cortado, fui para o 1º ano do curso primário na Escola de Aplicação, esquina da Rua Dr. Colares com a Augusto Ribas, atrás do Cine Ópera. Os cabelos grisalhos da professora, dona Maria Antônia, eram unidos numa única longa trança levada para o alto da cabeça e presa em círculos, formando impressionante coroa. Começamos a escrever com lápis, e só no segundo semestre encontramos tinteiros embutidos nas carteiras, quando cada aluno recebeu uma pena. Pena era o nome da caneta de madeira, em cuja extremidade havia uma pena metálica. Ao lado, o indispensável mata-borrão. Passamos a conviver com nossos dedos indicador, médio e polegar manchados de tinta azul. Maria Antônia era severa e irritada. Numa das primeiras aulas uma garotinha errou a lição, e essa professora agarrou-a pelos cabelos, sacudiu-a como um crocodilo faz com sua presa, atirando-a contra duas carteiras que ao se deslocarem derrubaram outras crianças. Petrifiquei de pavor ao ver que bruxas existiam e Maria Antônia deveria ser a rainha delas. Durante todo o ano deu tapas na cabeça das crianças e eventuais beliscões. Por motivos ignotos, fui poupado. Embora eu nunca tenha apanhado de meus pais – que não batiam nos filhos – naquele tempo genitores e professores violentos eram comuns. No 2º ano primário, no mesmo colégio, minha professora chamava-se Ida, e foi a mudança da bruxa para a fada. No 3º ano já em Campo Grande, no Colégio Oswaldo Cruz, minha professora era linda, delicada, chamada Agnes, e foi a primeira paixão de muitos de nós aos 9 anos. O 4º ano primário foi em Presidente Venceslau, SP, e meu professor Armando, cego de nascença, era o mais competente da cidade, além de boníssimo. Sua secretária chamava-se Zilda.

De volta a Ponta Grossa, o curso de admissão ao ginásio era ministrado por dona Armida, que mantinha sobre sua mesa uma palmatória de madeira. Cursei os quatro anos seguintes no Ginásio Ponta-grossense, ou “Academia”. Durante aqueles quatro anos minha professora de Matemática foi dona Adelaide, uma terrível reedição de Maria Antônia. Desde logo revelou-se tirana, distribuindo “croques” (cascudos) nos meninos que eram chamados ao quadro-negro e erravam a lição. Quando muito irritada, pegava o pesado livro de chamada, de capa dura, e o lascava na cabeça da criança. Para nunca apanhar dela, eu estudei Matemática ferozmente, com sucesso. Sempre passei de ano com notas não exemplares, mas suficientes. Ao concluir o ginásio, aliviado por ficar livre da professora, em represália esqueci tudo o que aprendi da megera, e até hoje conto nos dedos. Na Academia, a antítese a Adelaide foram os professores Zanoni, Paschoal e Joselfredo, respectivamente de Português, Francês e Geografia, muito queridos pelos alunos.

Depois, no Curso Científico, tive professores intelectuais, como a de Literatura Francesa, que tinha o apelido de Grací (era Maria da Graça Aguiar Armellini, e depois Maria da Graça Trèny), que abria sua casa para falar aos alunos sobre literatura, pintura, música, cinema, teatro, tal como a Madame de Rambouillet do século XVII, que abria seu Salão Azul para reuniões com a intelectualidade parisiense, que inspiraram inovações sociais, culturais, arquitetônicas e literárias. Dona Graci foi preciosa amizade que levei por toda a vida. Mas esta já é uma outra história de tempos melhores…

(Francisco Souto Neto – Novembro de 2o14)

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OBSERVAÇÃO:

ADIANTE, ALGUMAS FOTOGRAFIAS DA ÉPOCA E LUGARES A QUE SE REFERE A CRÔNICA ACIMA.

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Na foto acima: Carlos Roberto Emílio, Francisco Souto Neto (ambos aos seis anos de idade) e Ivone Barbosa Souto (aos 11 anos). Foto de Arary Souto, registrando a saída para o primeiro dia de Souto Neto e Carlinhos no jardim-da-infância, Colégio Sant’Ana. A ordem era: os três de mãos dadas, por motivo de segurança, até chegarem ao colégio, uns quinze quarteirões adiante. Recordo-me de ter baixado um pouco a cabeça, porque o sol era muito forte e feria meus olhos.

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Francisco Souto Neto de chuca-chuca aos seis anos, com seu velocípede no fundo do quintal.

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Aos seis anos, no fundo do quintal, entre os pés de milho.

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Aos seis anos, tempos do jardim-da-infância, com este traje que se chamava “macacão”.

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No quintal uma das galinhas de estimação com seus pintinhos.

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Já no 1º ano do curso primário, finalmente com o cabelo cortado. Foto no fundo do quintal. Atrás de todos, Edith Barbosa Souto. Ao centro, Ivone com seu gato Juju. Ladeando a Ivone, estão Francisco Souto Neto (à esquerda) com sua galinha Dengosa, e Carlos Roberto Emílio à direita, com outra galinha de estimação. Em frente à Ivone, o menor de todos, que era o amiguinho (e vizinho) Saulo de Tarso Schmidt Vasconcellos, que faleceria aos 7 anos num triste acidente. 

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Entre as galinhas de estimação, Ivone Barbosa Souto e as crianças Francisco Souto Neto, João José Pinto Maia e Graziela Pinto Maia (Grazinha). A galinha ao centro é a Dengosa. Abaixo à direita, a galinha com pintinhos é a Corriqueira, e à direita é a galinha preta de pescoço pelado que se chamava Birro.

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Arary Souto e Edith Barbosa Souto: natais com imensas e maravilhosas árvores natalinas.

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Natal em casa: Olímpio Souto, Zilá Lopes, Padre Pedro com Francisco Souto Neto, Nêmesis de Lima, Edith Barbosa Souto e Ivone Barbosa Souto.

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Francisco Souto Neto aos 7 anos: voar nos DC-3 da Real Aerovias era como um passe de mágica.

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Francisco Souto Neto aos 8 anos com o gato Juju, no “morrinho”, o terreno baldio que havia em frente à sua casa (à direita, na Rua Visconde de Nacar, 149, em Ponta Grossa). A primeira casa abaixo era do Sr. Constante Schmidt e Dª Anastácia, pais de Dª Alicinha e avós do Saulo de Tarso Schmidt Vasconcellos. Atravessando a rua (à esquerda) era a casa de Alberto Ferreira Emílio e Dª Ada, cujos filhos Adalberto e Sílvio casaram-se, respectivamente, com minha tia Iraty e minha prima Lindamir.

Esmanhoto

Rua Visconde de Nacar, 149, em Ponta Grossa, a casa da minha infância (tela de Ruben Esmanhotto). Era uma casa grande, com quatro quartos no andar térreo e dois quartos no sótão… No térreo Francisco Souto Neto brincava de ser Capitão Marvel, o super-herói da época… mas ao temível sótão não subia desacompanhado, porque acreditava que lá viviam, atrás das paredes, os pavorosos monstros da sua imaginação que ficavam à espreita: o terribilíssimo “homem-de-ferro” (o robô), as assustadoras almas penadas do outro mundo, o horrível vampiro de Béla Lugosi e o monstruoso Frankenstein de Boris Karloff...

DANDO UM SALTO DE ALGUNS ANOS, PARA LEMBRAR OS TEMPOS DO GINÁSIO:

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Francisco Souto Neto aos 12 anos, no 1º ano do ginásio, com sua mãe Edith Barbosa Souto, entrando em casa. Neste período residiram no casarão da Rua Augusto Ribas, 571, em Ponta Grossa, que ficava entre a Rua XV de Novembro e a Marechal Deodoro, a uns 50 metros do Cine Ópera e ao lado da Câmara Municipal. Tanto o casarão, quanto o prédio da Câmara, foram demolidos e em seu lugar existe hoje uma gigantesca agência do Banco do Brasil. O outro casarão que aparece ao fundo, do outro lado da rua , é do século XIX e continua a existir no corrente ano de 2014.

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Edith Barbosa Souto, mãe de Francisco Souto Neto, para lembrar seus familiares nos tempos do ginásio.

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Arary Souto, pai de Francisco Souto Neto, para lembrar seus familiares nos tempos do ginásio.

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Olímpio Souto, irmão de Francisco Souto Neto, para lembrar seus familiares nos tempos do ginásio.

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Ivone Barbosa Souto (Ivone Souto da Rosa após casar-se), irmã de Francisco Souto Neto, para lembrar seus familiares nos tempos do ginásio.

Digitalizar3285Francisco Souto Neto aos 16 anos, em casa, ao concluir o curso ginasial.

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Em dezembro de 1959 Francisco Souto Neto conclui o curso ginasial pelo Ginásio Ponta-grossense, mais conhecido por “Academia”. As solenidades da formatura realizaram-se no palco do Cine Teatro Ópera. Seu pai Arary Souto foi convidado a integrar a mesa das autoridades, na qualidade de diretor da Rádio Central do Paraná. Quando Francisco Souto Neto foi chamado ao palco para receber o diploma, para sua surpresa este lhe foi entregue pelo seu próprio pai.

Digitalizar3294Lembrando da casa da Rua Augusto Ribas nº 571, onde Francisco Souto Neto e irmãos moravam no 1º andar, vizinhos dos Pereira Jorge que tinham a entrada pela porta da calçada. A entrada à casa de Francisco Souto Neto fazia-se pelo portão do lado direito, através da alta escadaria que levava ao 1º andar. O prédio ao lado esquerdo, depois do duplo poste, é a antiga Câmara Municipal. O casarão ficava entre a Rua Marechal Deodoro e a XV de Novembro, em cuja esquina localiza-se até hoje o Edifício Ópera e o Cine-Teatro Ópera.  

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POST-SCRIPTUM:

No começo do século XXI, em 2004 para ser mais exato, o jornalista Adriano Justino, da Gazeta do Povo, fez uma sensível reportagem sobre os animais da vida de Souto Neto, mais exatamente sobre a chegada do chihuahua Paco Ramirez, ocasião em que se referiu nominalmente às galinhas de estimação da sua infância, tais como Funegundas, Dengosa, Birro, Pafúncia… o que poderá ser visto e lido neste endereço:

http://viagenseopinioes.blogspot.com.br/2011/09/paco-ramirez-el-corazon-de-souto-neto.html

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Sobre franciscosoutoneto

O comendador Francisco Souto Neto trabalhou no extinto Banco do Estado do Paraná S.A. até aposentar-se, onde exerceu as funções de inspetor, assessor da diretoria, da presidência e para assuntos de cultura. Filho do jornalista e radialista Arary Souto (1908-1963) e Edith Barbosa Souto (1911-1997), é advogado, jornalista e crítico de arte, com colunas em jornais e revistas desde os anos 70. Tem integrado diretorias e conselhos consultivos e administrativos de diversas entidades, sobretudo de órgãos oficiais ligados à cultura paranaense. Foi-lhe outorgado o título de Comendador pela Associação Brasileira de Liderança (São Paulo). Recebeu o "Troféu Imprensa do Brasil 2014" e também o "Prêmio Excelência e Qualidade Brasil 2015" na área da Cultura, como “Destaque entre os melhores do Brasil”. Em novembro de 2016 recebeu mais uma vez o Troféu Imprensa Brasil, seguido do Prêmio Cidade de Curitiba, e ainda do Top of Mind Quality Gold. É membro da Academia de Letras José de Alencar, em Curitiba, onde ocupa a Cadeira Patronímica nº 26.
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4 respostas para Professoras da minha infância: os inocentes e as bruxas

  1. Dione Rosa disse:

    Oi, padrinho. Parabéns pela crônica. Tive tempos melhores no início da escolaridade e as irmãs do colégio de freiras não batiam nos alunos. Eu e Isabelle temos lido suas crônicas, incluindo as premiadas, com comentários nossos. Isabelle também fez comentários, pois leu tudo atentamente, e gostou demais. Beijos.

    • Oi, Mara. Sem dúvida, você é de uma geração em que as professoras já não eram violentas como as do meu tempo de escola… Sinto-me muito feliz sabendo que você e Isabelle gostaram dos meus textos. Li os comentários que vocês fizeram naquele meu outro blog, e naquela ocasião deixei lá meus comentários e agradecimentos a vocês. Beijos!

  2. alberto olavo de carvalho disse:

    concordo totalmente com teu comentário: adelaide thomé chamma era, realmente, uma bruxa…
    abraços
    tim

    • Caro amigo Tim, não pude deixar de rir do seu comentário… A verdade é que a falta de didática de alguns professores daqueles tempos idos era uma coisa assombrosa.
      Obrigado por escrever. Um abração a você.
      P.S.: Quero aproveitar a oportunidade para cumprimentá-lo pelo seu livro “Nem só de carne vive o homem”. Gostei do ritmo dos seus relatos e da maneira universalizada como mesclou os assuntos ligados ao Clube de Caça e Pesca com os momentos políticos, sociais e históricos que ocorriam simultaneamente, não apenas em Ponta Grossa e no Paraná, como também no Brasil. Um livro interessante e muito ligado aos acontecimentos paralelos à minha infância e às nossas respectivas famílias. Obrigado pelas referências a meu pai.

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